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OUTUBRO ROSA E OS DESAFIOS DE SER MULHER COM CÂNCER DE MAMA
O número de pessoas com câncer no Brasil e no mundo têm aumentado cada vez mais, e dentre os mais variados tipos, o câncer de mama segue sendo o mais comum entre as mulheres. Existem vários tipos de câncer de mama, sendo que alguns se apresentam de forma mais agressiva, outros são menos complexos. Muitas mulheres recebem o diagnóstico na meia idade, entre 35 e 50 anos, algumas na terceira idade e há relatos de poucos casos que foram diagnosticados na adolescência. O que poucas pessoas sabem é que homens também podem ter câncer de mama, mas isso é bem raro, sendo menos de 1% dos casos. Mas existe algo que é consenso entre as equipes de saúde e os estudiosos dessa doença: a importância do diagnóstico precoce. Já está muito claro que, quanto mais cedo o câncer foi diagnosticado, maiores são as chances de se ter um bom prognóstico, ou seja, do resultado do tratamento e das terapêuticas que visam combater o câncer serem positivos.
Receber o diagnóstico de câncer de mama não é nada fácil e isso envolve inúmeros fatores. O câncer por si só já uma doença muito estigmatizada e cheia de tabus, pouco se discute sobre ele e quando nos deparamos com alguém que está passando por um processo de tratamento oncológico, a maioria das pessoas não sabe o que dizer, como se comportar, como se dirigir e o que falar, até olhar diretamente para a pessoa se torna algo desafiador.
Quando falamos de câncer de mama os desafios se multiplicam. A maioria das mulheres quando recebem o diagnóstico estão na fase mais produtiva de suas vidas, muitas delas são mães de filhos pequenos, no auge de suas carreiras, compartilham de relacionamentos, sonhos, planos que de uma hora para outra são interrompidos e substituídos por uma rotina intensa e dolorosa que é o tratamento de um câncer. Ela então passa a enfrentar processos que envolvem quimioterapia, radioterapia e o principal deles, uma cirurgia que sendo radical ou não impacta a vida dessas mulheres.
Quando pensamos no impacto da retirada de uma mama, é preciso trazer alguns fatos sobre o país onde vivemos. Atualmente, o Brasil é recordista mundial em cirurgias plásticas, somos conhecidos mundialmente pelo carnaval e tudo que ele envolve e a mulher brasileira ainda é vista no cenário mundial como um símbolo sexual. Isso tudo corrobora para que desde cedo tenhamos uma preocupação além do necessário com nossos corpos e aparência. Cada vez mais cedo meninas são hipersexualizadas e se estabelece uma busca por um padrão de corpo perfeito e beleza eterna que são impossíveis de se alcançar, mas a maioria das mulheres seguem tentando.
Portanto, quando uma mulher com câncer de mama passa por uma cirurgia que retira parte ou até mesmo toda sua mama, quando não as duas, é como se ela deixasse de existir como mulher. Uma parte muito grande da sua sexualidade é apagada, muitas delas deixam de pensar na possibilidade de sexo com seus parceiros, até porque parte do tratamento envolve medicamentos que reduzem o desejo sexual, sua autoestima é completamente abalada por conta da alteração que acontece de sua autoimagem, há o medo de deixar seus filhos, de não conseguir retornar para seus empregos e o número de mulheres que são deixadas por seus parceiros durante o tratamento também é alto. Elas deixam de ser vistas como mulheres e passam a ser enxergadas apenas como uma pessoa doente. Sem contar as dificuldades físicas e de mobilidade que a cirurgia e o tratamento causam: dores, limitação de movimento, problemas de cicatrização, queimaduras, náuseas e vômitos, limitação no carregamento de peso, entre muitas outras dificuldades.
Diante de tantos desafios, é preciso ações urgentes que visem amenizar impacto deste tipo de câncer na vida dessas mulheres e também ações de prevenção e detecção precoce, seja trazendo informações da própria doença e a importância de uma rede de apoio durante o tratamento, como prevenir o câncer de mama, a importância de exames como a mamografia a de se ter uma rotina anual de consultas ao ginecologista e também ações que buscam resgatar a autoestima dessas mulheres, seja durante o tratamento ou após ele.
O Outubro Rosa, movimento internacionalmente conhecido, foi criado na década de 1990 nos EUA e somente em 2002 iniciaram as ações no Brasil, têm por objetivo promover tais ações, educar a população sobre a importância da detecção precoce do câncer de mama, buscando a redução da incidência e da mortalidade pela doença.
Muitas mulheres passam pelo câncer de mama, enfrentam uma cirurgia mutiladora e em muitos casos conseguem seguir suas vidas, retornar ao mercado de trabalho, voltar para suas rotinas e para suas famílias, porém infelizmente essa não é a realidade de todas elas. Existe sim vida pós câncer mama e, sem dúvida alguma, essas mulheres chegam ao final do tratamento completamente diferente de como eram antes, mas é importante lembrarmos que em nenhum momento essas mulheres devem ser resumidas a uma doença. É preciso olhar para essas mulheres, entendendo o momento desafiador pelo qual estão passando e ter coragem de ainda enxergar uma mulher em toda a sua complexidade.
SUELLEN GONZAGA
Fisioterapeuta Graduada na UNESP - Campus Marília
Especialista em Oncologia pela UNIFESP
Atualmente é Fisioterapeuta do Hospital Sírio-Libanês em São Paulo
