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O SER PROFESSORA E A LUTA POR UMA ESCOLA PARA TODOS
06/11/2020

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Vida de professora*!

Marcas de uma vida em que se misturam a docência e a vivência de outros papéis sociais... Ser professora é ir nos fazendo na vida no entrelaçamento com a vida dos outros, daqueles que passam por nós e em nós deixam tanto, mesmo sem saber!

Impossível esquecer cada um dos olhares que encontramos em nossas trajetórias: olhares brilhantes, curiosos, cheios de vida! O olhar de quem quer saber, de quem tem interesse para acessar o conhecimento, patrimônio da humanidade. Da infância à velhice... não importa a etapa da vida e sim o movimento em direção ao saber.

Somos tantas professoras num exercício cotidiano para propiciar a cada um e a todos que passam por nós um pouco daquilo que sabemos e, como nos dizia o Pequeno Princípe,  de Antonie de Saint-Exupéry,  nos tornando responsáveis por aqueles que cativamos.

Ser professora é saber que não importa gênero, etnia, religião ou as condições biopsicossociais de nossos aprendizes, nossa dedicação dever ser indistintamente para todos, na busca incessante de fazer diferença em suas vidas e impulsionar o desenvolvimento por meio da aprendizagem.

Impossível, nesse momento, não lembrar de Vygotski quando afirma “que verdade libertadora para o pedagogo” saber que não há limites para o desenvolvimento e o que marca o destino de uma pessoa são as consequências sociais e sua realização psicossocial, a constituição de sua subjetividade, seu potencial psíquico de linguagem, pensamento, autorregulação e emancipação e, tudo isso, depende dos processos de mediação e, entre eles, o da educação escolar, portanto, da ação de professoras (VYGOTSKI, 1997).

Ser professora é exercer a tríade ensinar-aprender-desenvolver numa complexa relação dialética, na qual uma ação não existe apartada da outra, embora o tempo do ensino seja diferente do tempo do aprender e do desenvolver, uma vez que a internalização do conhecimento se dá pelo encontro entre objetivação e apropriação, que, para Pino o termo “conversão” seria o mais adequado para definir a tese Vygostikiana de que as funções mentais superiores são as relações sociais internalizadas, isso significaria que “a internalização das relações sociais consiste numa conversão das relações físicas entre pessoas em relações semióticas dentro da pessoa” e que na “conversão das relações sociais em relações intrapessoais, o elemento que permanece é a significação dessas relações, tanto no plano social quanto no pessoal”(PINO, 2005, P.112 – grifos no original).

Que boniteza tudo isso! Saber que a marca do desenvolvimento não são, meramente, as condições primárias ou biológicas das pessoas, mas, sim, as relações sociais e, mais significativamente, as que ocorrem no âmbito da educação, do encontro entre professoras e seus aprendizes.

Assim, não há como pensar em escola sem que ela seja para todos! Ensinar significa transformar funções elementares e instintivas em funções mentais superiores porque caracterizam especificamente o humano em nós: a autorregulação dos instintos, tornando-os expressões do pensamento e das decisões subjetivas, o entrelaçamento de intelectualidade e afetividade.

Ser professora, portanto, é atuar incansavelmente e insistentemente para que todos possam estar juntos com seus pares, na convivência da diversidade no mesmo espaço educacional, pois diverso é o humano e isso que nos impulsiona a busca de nossa completude, incompleta por essência, porém, ato impulsionador da humanidade.

Que possamos compartilhar saberes no ato de ensinar a todos numa escola que possa se tornar pública, democrática, popular, para todos e, portanto, inclusiva.

 

*Usarei o feminino por alguns motivos: ser eu uma professora e expressar aqui um pouco da minha vivência ; por ser o magistério, principalmente na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, ser exercido por mulheres; por demarcar a luta da mulher no reconhecimento de seu trabalho; pelo fato da mulher exercer múltiplas funções, entre a elas, a de ser mãe, assumindo, muitas vezes, exclusivamente o papel de professora, mãe, mulher, filha entre tantos outros.

Referências

SAINT-EXUPÉRY, A. O pequeno príncipe. São Paulo: Editora Agir, 2015, 96p.

PINO, A. As marcas do humano – às origens da constituição cultural da criança na perspectiva de Lev S. Vigotski. São Paulo: Cortez, 2005. 303p.

VYGOTSKI, L. S. Fundamentos da Defectologia – Obras Completas – tomo cinco. Cuba: Editorial Pueblo y Educación, 1997. 391p.

 

Profa.  Dra.  Anna Augusta Sampaio de Oliveira
Livre-docente em Educação Especial - UNESP
Pós-doutorado em Educação Especial - Faculdade de Educação - USP
Coordenadora Adjunta do Mestrado Profissional em Educação Inclusiva em Rede Nacional - PROFEI
Coordenadora do Conselho de Curso de Pedagogia 
Professora Associada - UNESP- Marília