BLOG

home > blog

A SAÚDE MENTAL DOS PROFESSORES DURANTE A PANDEMIA
27/11/2020

<<Você pode ouvir este texto no nosso canal no Spotify e Deezer >>          

 

 

Quando a Maewa me pediu para escrever um texto com este tema, já me senti motivada e achei extremamente pertinente refletirmos um pouco sobre esse assunto. Por isso, fiz um breve contato com alguns professores para não ficar apenas com a minha percepção. Resultado do contato quase que diário de orientação e acompanhamento dos meus pacientes em reuniões multiprofissionais, mas queria realmente dar voz a esses guerreiros que fizeram a diferença em 2020.

 

Estamos passando por um ano atípico em toda a história da humanidade. Enfrentamos a primeira onda da COVID-19 e vários outros países já estão vivenciando o pico da segunda onda. Muitos profissionais da área de saúde já sinalizam uma possível terceira onda, que não é de infecção por este novo coronavírus, mas que está relacionada a problemas na saúde mental da população.


            Nesta pandemia algumas profissões se destacaram pela sua importância na vida da sociedade e uma dessas profissões foi a de professor. Eles precisaram se reinventar e adaptar rapidamente a diferentes contextos familiares e tecnológicos, por exemplo, mantendo sempre o foco no desenvolvimento do aluno.


          Após 8 meses de pandemia conversei com professores que lecionam em creche comunitária, escolas particulares, escolas públicas, Centro de Ensino Especial e escola inclusiva - que em Brasília consiste em uma escola com turmas reduzidas para alunos incluídos e turmas de ensino especial dentro do mesmo ambiente.
Com isso, a oportunidade de compreender melhor como esses profissionais vivenciaram os últimos meses, mostrou mais uma vez a importância de cuidarmos melhor da saúde mental dos nossos professores.

 
       Todos os professores relataram que no início da pandemia houve um aumento na ansiedade - mesmo aqueles que já se reconheciam ansiosos; aumento no ganho de peso; distúrbios do sono; sentimento de angústia; aperto no peito; sintomas depressivos; esgotamento físico e mental; parada nas atividades físicas regulares; receio pela falta da parceria das famílias nas aulas on-line; diminuição na ingestão de água; alteração no ciclo menstrual; medo excessivo de contaminação e de perder pessoas queridas; medo de não conseguirem fazer as aulas remotas por falta de habilidade com as tecnologias; insegurança com o que poderia acontecer; exaustão pelo excesso de cursos que precisaram fazer em tão pouco tempo, para que as aulas a distância pudessem acontecer de forma que prendessem a atenção das crianças e alcançar os objetivos esperados.


        Durante o auge da quarentena, a ansiedade dos profissionais começou a diminuir ao perceberem que as aulas estavam acontecendo, porém alguns dos sintomas ainda persistiram, tais como: sentimento de frustração por entenderem que poderiam estar contribuindo mais no desenvolvimento dos seus alunos se a aula estivesse presencial, pois as famílias não conseguiram ajudar como desejado na mediação das aulas on-line; falta de privacidade já que os professores precisaram disponibilizar o número pessoal dos celulares para comunicação direta com os pais; o excesso de demandas das famílias, assim como, em relação aos horários e dias das semanas que as mensagens eram enviadas no WhatsApp; a cobrança imediatista de algumas famílias e da própria gestão escolar; dificuldade de conciliar as demandas do trabalho remoto com as aulas dos próprios filhos que também aconteciam a distância; medo de ficarem desempregados por entenderem que o cenário econômico não está favorável para uma nova contratação.


      Contudo os profissionais também relataram aspectos positivos da pandemia. Muitos declararam que se sentiram animados com o desafio de se reinventarem e continuam motivados com as ferramentas que aprenderam; conseguiram melhorar a qualidade no sono, já que não precisam acordar tão cedo para se deslocarem até a escola e nem dormem tão tarde por conta dos afazeres domésticos e da tarefa de acompanhar os deveres dos filhos; tiveram a oportunidade de conhecer melhor os filhos compreendendo as suas dificuldades e necessidades. E teve professor que aproveitou o momento para fazer cursos e se aperfeiçoar por conta própria.


       Algumas estratégias adotadas foram citadas como importantes na melhora da saúde mental, como: prática da religião; a realização da atividade física; retorno das aulas presenciais; retorno ao trabalho remoto; psicoterapia; realização de check up médico; evitar assistir telejornais; retomar os autocuidado e escolhas mais saudáveis na hora da alimentação.


       Quando questionados sobre como se sentem para uma possível segunda onda, com previsão de uma quarentena mais rígida novamente, a maioria respondeu não estar preparado; estar apreensivo; com medo e não querem pensar muito sobre isso. Houve relato também de medo do retorno do trabalho presencial antes da vacina por não terem se adaptado ao uso da máscara e por entenderem que com os alunos especiais no qual trabalham é praticamente impossível a ausência do contato físico. Em contrapartida, tem professor que se diz mais preparado por saber que às aulas on-line estão dando certo e que os médicos já estão mais preparados para tratar os casos graves da doença.


         Pude concluir que cada fase da pandemia exigiu uma postura de enfrentamento e um ritmo diferente para cada profissional. Nesse período, os professores de escolas particulares relataram uma demanda de trabalho que foi aumentada com o retorno das aulas presenciais e a manutenção do sistema híbrido (presencial e on-line) de ensino. A participação e disponibilidade das famílias foi fundamental para que a parceria tão sonhada entre escola e família de fato pudesse acontecer. Fica ainda o sentimento de maior tranquilidade por agora saberem como fazer, o que dá certo e o que não dá certo. A influência dos familiares desses profissionais, ou seja, a rede de apoio foi de suma importância para que pudessem reagir aos diferentes desafios da pandemia. E, de modo geral, foi um ano de muito aprendizado pessoal e profissional.


       Por fim, gostaria de ressaltar que devemos ter todo o respeito e admiração, valorizar o trabalho e reconhecer o esforço, empenho e dedicação desses profissionais, mesmo sabendo que alguns professores não tiveram esse comprometimento citado, mas esperamos que tenha sido a minoria dos casos. Devemos refletir como queremos ter um Brasil melhor intelectualmente e moralmente se não valorizarmos e investirmos na Educação e nos nossos professores. Temos que nos preocuparmos com a saúde mental dos professores e cobrarmos políticas públicas para que possamos atuar de forma preventiva, minimizando os impactos dessa possível terceira onda.

 

        Será que isso é realmente possível? Sinceramente, eu acredito que sim. Devemos cuidar e procurar a ajuda necessária, respeitando a necessidade e a individualidade de cada um. E você professor, como tem se cuidado?

 

 

 

Ana Amélia Ribeiro de Almeida é psicóloga (Psicóloga – CRP: 01/12658) pela Universidade Católica de Brasília - UCB / Brasília. Especialização em transtorno do espectro autista. Sócia majoritária no tratamento de terapia Comportamental domiciliar no Distrito Federal que atende crianças, adolescentes e adultos com transtorno do espectro autista (TEA). No tratamento desenvolve o trabalho como psicóloga supervisora clínica individual, terapeuta familiar, realiza capacitação de cuidadores, terapeuta no contexto escolar e presta consultoria a escolas sobre inclusão no Distrito Federal e co-fundadora do Café Inclusão.