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E NO MEIO DO CAMINHO... UMA AVALIAÇÃO!
Quem não se lembra do poema “No Meio do Caminho” de Carlos Drummond de Andrade. Na época em que esse poema foi apresentado ao público gerou um reboliço no meio literário por romper com modelos estabelecidos há tempos. Por ironia ou não, Drummond fez uso de uma pedra como obstáculo para romper com um modelo de poema que já não acompanhava ou não atendia a visão poética do autor. A visão de Drummond tempos depois demonstrou não ser uma necessidade de mudança não apenas no âmbito individual, mas de uma sociedade que apresentava novas necessidades.
Quem nunca se deparou com uma pedra no meio do caminho!? Provavelmente sua resposta seja sim!
Pois bem! Seja você professor ou não, seja você um entusiasta pela aprendizagem e que gosta de ter a sensação da alegria de descobrir o novo e sente essa mesma sensação quando proporciona a aprendizagem de alguém, então você irá se identificar com esse relato de experiência.
Descobri não muito tempo que adoro aprender coisas novas, mas que fico ainda mais feliz quando consigo proporcionar a uma outra pessoa a alegria do aprender e de descobrir coisas novas. Descobri também que fico muito desapontado quando isso não acontece, quando não consigo notar a alegria ou satisfação daqueles que estão passando pelo processo da aprendizagem.
Já sou professor há alguns anos e durante esse tempo minha prática docente visou, sempre que possível, o pleno desenvolvimento dos alunos. Minha forma de ver a educação não poderia ser diferente uma vez que me especializei como professor na área da Educação Especial de alunos com deficiência intelectual.
As necessidades educativas dos alunos com deficiência nem sempre conseguem ser supridas pelos modelos e metodologias tradicionais de ensino, por isso, o professor dessa área precisa ousar e superar modelos tradicionais de ensino que não suprem a necessidade desses alunos. Não estou aqui propondo uma revolução geral nos modelos e sistemas de ensino, mas é preciso repensar o modelo tradicional de ensino em pontos específicos que não agregam bons resultados para o ensino e aprendizagem, sejam elas de crianças ou adultos com ou sem deficiência.
Atualmente o cenário mundial vive um momento desafiador em todos os contextos, seja elas no âmbito profissional ou pessoal onde estamos tendo que reaprender a viver e a conviver.
Quando nos deparamos com o assunto da aprendizagem é inevitável que os profissionais que atuam com essa premissa sejam os primeiros a se virem desafiados a repensar sobre sua prática profissional.
No momento atual o sentimento da grande maioria dos profissionais da educação é de frustração e descontentamento com os resultados acerca da aprendizagem dos alunos. Esse sentimento se acentua ainda mais quando pensamos sobre a avaliação desses alunos ao retornarem para sala de aula. Alguns professores já prevendo o pior cenário já conversam entre si: “eles devem ter desaprendido tudo”; “acho que eles não sabem nem o básico mais”.
Para o professor é inevitável pensar o ensino e aprendizagem sem pensar na avaliação, pois é ela que ajuda a nortear a atuação desse profissional. Portanto, no caminho do processo de ensino e aprendizagem desse profissional sempre haverá uma avaliação, seja ela como instrumento para avaliar ou realizar uma autoavaliação.
Falando em autoavaliação, foi exatamente essa ação que me fez refletir e escrever esse texto. Fiquei muito frustrado quando analisei os objetivos não alcançados e isso me levou a um sentimento de tristeza. Aquela alegria de ensinar não mais sentia. E isso me levou a perceber que eu também estava avaliando os resultados apresentados pelos meus alunos, grande maioria com deficiência intelectual, da mesma forma.
Por força do hábito de modelos de avaliações que fomos submetidos ao longo da vida, somos levados a olhar sempre para aquilo que não conseguimos aprender. Vivemos em uma sociedade que nos faz cobrar diariamente por melhores resultados e por isso acabamos não dando atenção para aquilo que já aprendemos ou sabemos.
Atuar como professor de pessoas com deficiência me levou a pensar na avaliação de uma forma diferente. Me levou a olhar para habilidades aprendidas que normalmente não olharia como algo que devesse perceber como um aprendizado adquirido. Os alunos com deficiência muitas vezes não conseguem ser alfabetizados, contudo nem por isso eles são desprovidos de saber ou experiência de vida. Apresentam também diversos interesses e preferências tão peculiares quanto o de outras pessoas sem deficiência.
É preciso superar a avaliação tradicional para nos preparar desde cedo para o mercado de trabalho, que tenta nos mostrar se somos mais ou menos eficientes, mais ou menos competente em determinado assunto.
Para superar esse obstáculo que é avaliação tradicional é preciso colocar em prática outro tipo de avaliação. Uma avaliação que permita que professores e alunos se conheçam melhor. Onde o professor se apresente como um facilitador da aprendizagem e o aluno se mostre aberto a aceitar o desafio de aprender e descobrir o novo.
Em outras palavras, a avaliação deve permitir que o aluno se apresente como um sujeito que tem valores, interesses e preferências.
A meu ver, a avaliação deve ser apresentada ao aluno incialmente como um momento em que ele pode apresentar tudo o que ele sabe, sem julgamentos. Quanto mais o professor sabe sobre seu aluno, maiores são as chances de se criar uma relação de ensino e aprendizagem efetiva.
Na prática docente a avaliação pode assumir o papel de obstáculo e aos poucos tirar a alegria dos alunos de aprenderem ou ela pode assumir um outro papel. Ela pode assumir uma ponte para conexão entre aluno e professor, onde o objetivo principal não é apenas atravessar, mas também partirem juntos para adquirir novos saberes e aprendizados.
Angel Saucedo Silvero (parceiro desse cafézinho!)
Pedagogo com Habilitação em Deficiência Intelectual (UNESP/Marília)
Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional (INDEP/Marília)
Especialização Latu Sensu em Formação de Professores em Educação Especial: apoio à escola inclusiva
Atividades atuais:
Atualmente compõe o quadro de professores efetivos do Estado de São Paulo no município de Marília atuando como professor Especialista em Educação Especial em Sala de Recursos na Área da Deficiência Intelectual e também compõe o quadro de professores da APAE de Marília, atuando como professor em sala de aula.
Observação: Não fazemos nada sozinhos, assim foi a escrita desse texto, a partir de boas conversas. Destaco e agradeço aqui Danielle Cazuo. Obrigado pelas conversas dessa semana pelos corredores da escola.
