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DEFICIÊNCIA INTELECTUAL, UM PRIMEIRO DIA TODOS OS DIAS...
O que pode ser mais assustador que o novo? O diferente? Estamos acostumados a ficar em nossa zona de conforto, com o que já conhecemos e sabemos, dificilmente queremos perder o controle de qualquer situação.
É sempre mais fácil se mantivermos o que já foi feito e dito, é preciso ousadia até para se ter medo. Foi assim que aceitei convite para escrever um pouco sobre minha experiência, a princípio o medo pairou por um momento, mas cá estou!
No meu primeiro dia como professora na Educação Especial experimentei essa sensação, lembro-me exatamente do frio na barriga que senti ao ver os alunos entrarem pelos corredores da escola. Uma sala inteirinha minha, todos com deficiência intelectual.
Por onde começar? Foi a primeira pergunta que me fiz, eu com minhas certezas que não cabiam naquele momento e eles à minha espera, com seus olhares repletos de curiosidade e esperança. Desde então venho descobrindo “o novo” todos os dias, como se fosse o primeiro...
Em toda minha trajetória na educação procuro não perder de vista a essência de tudo que acredito. Vivê-la da maneira mais verdadeira possível não tem sido uma tarefa fácil, a cada novo dia, um novo enfrentamento, e lá vamos nós em busca da tal coragem. Mas onde a encontramos? Neles! Nossos alunos, que dia a dia encaram de peito aberto os desafios encontrados pelo caminho, sem medo do novo.
Posso afirmar ao longo desses anos que cada dia tem sido um novo aprendizado, mas há aqueles que preciso aprender todos os dias:
Aprendo todos os dias que ser professor não é apenas ensinar conteúdos: língua portuguesa, matemática, história etc., mas que o papel do educador é perceber o outro em sua totalidade, compreendê-los como sujeitos capazes repletos de possibilidades.
Aprendo todos os dias a buscar estratégias que contribuam de forma significativa para seu desenvolvimento e autonomia, para que possam trilhar seu próprio caminho.
Aprendo todos os dias que há caminhos possíveis para transformar a vida desses alunos, possibilitando que se tornem sujeitos ativos dentro da sociedade em que vive.
Aprendo todos os dias que a relação família/ escola é essencial para o desenvolvimento do nosso trabalho, que elas precisam ser amparadas em suas necessidades.
Aprendo todos os dias com meus colegas de trabalho, com quem troco tantas experiências, e o quanto essas relações me tornam mais humana.
Aprendo todos os dias a me equilibrar entre esse vai e vem do avançar e voltar atrás, sem frustações ou sentimento de incompetência.
Aprendo todos os dias que seguir escalas e ritmos padronizados tendem a uma projeção de normalidade, conceito que não me sugere muita coisa, pois refletem apenas ideias estabelecidas.
Aprendo todos os dias que ser professor requer um olhar observador, sensível e acolhedor, tais habilidades tão essenciais que nossos alunos nos revelam de maneira tão natural. Então aprendo todos os dias o quanto eles têm a nos ensinar...
Quero um primeiro dia todos os dias porque descobri que o diferente me ensina tantas coisas que eu não sei. Quero um primeiro dia todos os dias, porque descobri que o novo nos impulsiona a transformar nossas vidas e daqueles que estão ao nosso lado nessa caminhada.
Agradeço a minha parceira de trabalho Maewa Martina pela confiança na escrita desse texto, ao meu amigo Angel Saucedo Silvero por compartilhar tantas reflexões. Pois com eles eu também aprendo todos os dias!
Danielle Gonçalves Cazuo
Pedagoga formada pela Unesp/ Marília, especialista em Educação Especial- Deficiência intelectual pela Uniasselvi/ Santa Catarina.
Atualmente trabalha como professora de Educação Especial em sala de aula na APAE de Marília, também é professora de Educação Infantil na Prefeitura Municipal de Marilia.
