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SURDA ORALIZADA
Eu sou a Tania Regina Camargo, sou surda oralizada e uso aparelho auditivo, sou solteira, aposentada.
Nasci no interior de São Paulo em 1954, minha mãe percebeu quanto eu tinha dois anos, e meu irmão com três anos, que somos surdos. Com a descoberta ela resolveu mudar pra São Paulo para ter mais recursos.
Em 1958 fui para escola semi-interno no Instituto Educacional de São Paulo, IESP, hoje escola particular conhecida como DERDIC. Para mim foi importante ter uma escola semi-interna para criança surda ou em geral, especialmente com deficiência. A escolha da minha mãe foi importante, para mim ela foi minha heroína.
Durante o período escolar fiz fonoaudiologia no Hospital das Clínicas. Dentro da escola o uso da Língua Brasileira de Sinais – Libras – era proibido, porque o objetivo era aprender ouvir e falar. Fiquei nessa escola até 1964, sem noção da vida real fora da escola.
Depois entrei na escola estadual, me senti um peixe fora d'água com medo de tudo e todos. Com o tempo fui aprendendo a conviver usando aparelho auditivo 24 horas por dia. Nas escolas técnicas e na Faculdade de Contabilidade, eu avisava o professor que era surda pedia para falar na minha frente, eu nunca dizia que era surda para meus colegas de classe.
Iniciei no mercado trabalho em 1973, indicada pela amiga da minha mãe. Eu disse a chefe que só sabia datilografar. Dentro emprego fiquei muda por 3 meses, sem conversar com os colegas de trabalho por medo e desconfiança, também por medo de sofrer bullying.
Com o passar do tempo aprendi me defender sempre tinha resposta na ponta da língua. Trabalhei até 1998, após me aposentei. Comecei como auxiliar de escritório e terminei como coordenadora de departamento pessoal.
A Libras veio depois que encontrei alguns surdos que estudavam na mesma escola na infância mais ou menos com 25 anos idade. Me veio o interesse em saber como eles sobreviviam, quando se casavam, quando tinham filhos e também como moravam sozinhos.
Eu comecei a morar sozinha quase com 30 anos para aprender a sobreviver. Nesse período os surdos sinalizados não aceitavam quando tinham surdos oralizados e com uso de aparelho. Nesse período fui aprendendo aos poucos a Libras, participando de várias festas e eventos.
Durante esse período fiz cursos de Libras para melhorar minha expressão, tenho certificado PROLIBRAS para instrutor, me formei em 2007. Comecei dar aulas de Libras para professores no período de 2005 até 2012, nesse período fui voluntária na comunidade surda.
Com isso, aprendi a ver com meus próprios olhos as dificuldades de cada um, considerando todas as idades, dentro da escola especial e inclusão.
Eu geralmente falo, sou SURDA com ou sem aparelho. Ouvintes falam para mim, que falo bem! Essa palavra “falar bem” para um surdo é ridículo, até porque tenho muitos erros na pronúncia. Digo sempre EU CONSIGO ENTENDER O QUE VOCÊ FALA, quando está com SURDO é o mais correto.
O significado do ouvinte, falar bem quer dizer que consegue entender em comparação a outro surdo ok, mas para eles, surdos e parecer não comete nenhum erro na pronúncia. Lembrando a palavra DEFICIENTE AUDITIVO para mim é apenas uso dos protocolos.
Ademais, quando dei curso de Libras para professores de 2005 até 2012, visitei escolas municipais inclusivas, onde tinha apenas um aluno surdo dentro da sala com quarenta crianças ouvintes, na minha aula a professora tinha dificuldade em lidar com esse aluno. Eu apenas mostrei a ela fazer sinais junto com a fala e que isso também iria ajudar as outras crianças a participar. Esso para mim é INCLUSÃO!
Erro grande é o número de crianças pré-escolar até ensino médio.
Nesse período fui para escola municipal com crianças surdas como instrutora onde não tem Libras entre faxineira até diretoria, somente para professores. Exemplo, vi um erro absurdo, como uma professora gritando com aluna surda. Eu estava sem aparelho percebi e reclamei.
Me pareceu como se fosse avisar escola inteira que essa aluna dá muito trabalho e não é a forma adequada de mostrar que ela está brava com a aluna.
No meu período de adolescência não sofri por ser surda, tinha condições de ouvir e falar também me defender quando fosse preciso. Depois me aposentei por tempo de serviço, também aposentei o uso aparelho auditivo.
Hoje vejo TV com closer, digo legenda, mesmo com falhas. Porque precisava frequentar lugares, sentir a dificuldades que a maioria dos surdos têm. Geralmente quando estou em lugares sem aparelho digo que sou surda. Alguns escrevem, outros continuam a falar. Hoje com a máscara, as vezes as pessoas se recusam a abaixar a máscara para leitura labial.
Ainda tem barreiras que serão que continuaram por bastante tempo, como quando tem painel com numeração, ótimo, mas quando chamam pelo nome, fica complicado. Em todos os atendimentos, em geral alguns ainda tem dificuldades de se comunicar. Quando tem idosos gritam as vezes sem necessidades. Somente falar sem voz a pronúncia fica mais fácil para mim.
Meu sonho é que todas as escolas e instituições de ensino tenham a disciplina de Libras para todos, de preferência uma disciplina ou curso que integre os pais, as famílias também.
Na área do trabalho, que as empresas também proporcionem oportunidades para surdos, com intérpretes, ampliando a comunicação entre surdos e ouvintes. Na área da saúde, atendimento acessível para todos.
A maioria do surdos tem orgulho de ver onde eles se encontram com pessoas que sabe Libras, é a mesma coisa quando estamos em países estrangeiros.
Hoje vejo muito YouTube em Libras para não esquecer e também ver novos sinais para minha atualização. Por estar aposentada tenho sempre contato com surdo para orientação ou conselho, para isso uso a web. Finalizo esse relato com um texto que me marcou quando fiz um curso de teatro.
"VIVI O SILÊNCIO
Porque não me comunicava
É esse o verdadeiro SILÊNCIO
O SILÊNCIO tem um significado só meu
Em outras palavras
Nunca vivi o silêncio
Tenho meu barulho próprio
Não é explicável para quem escuta
Tenho minha imaginação
Ela tem barulho de IMAGEM"
Tânia é formada em Ciências Contábeis, atualmente é aposentada. Tem diversas experiências profissionais na área administrativa. É instrutora de Libras e foi conselheira no Conselho Municipal de Pessoas com Deficiência.
